NOSSA PROPOSTA
A Enciclopédia do Vazio é um projeto de graduação (o famoso TCC) que encerrará nosso ciclo letivo como alunos de comunicação. Dentre as modalidades disponibilizadas pelo curso, optamos pela que mais abre espaço para um tema que nos motivasse de verdade, a monografia experimental, que inclui não só a pesquisa monográfica tradicional como também outra etapa que a sucede: a produção de linguagem.
No nosso caso, foi fácil escolher qual tipo de linguagem seria produzida - um dos motivos, aliás, pelo qual nos unimos. O interesse dos três por audiovisual e cinema determinou, antes mesmo da escolha do tema, o formato a ser produzido. Por isso, após redigir nosso trabalho monográfico, encerraremos o projeto com um curta-metragem que contemple todos os processo de pesquisa bibliográfico e documental.
Com o tema, não foi muito diferente. Logo encontramos um assunto que os três gostariam muito de investigar e expressar, por tratar-se de algo tão estranhamente vago, mas também palpável e sinestésico - e, querendo ou não, presente em nossa vidas. É o tal do vazio existencial, um sentimento universal que é estudado pelos seres humanos há um tempão, mas de tão complexo que é, fica difícil definí-lo. Pensamos, então, na ideia de enciclopédia, que aborde alguns dos pontos de vista sobre esse vazio, a fim de melhor compreendê-lo em primeiro momento, e depois, representá-lo por meio de nosso curta (mesmo que um pedacinho dele).
Sendo mais que um trabalho de conclusão de curso, esse projeto nos envolveu de verdade.
Um projeto de graduação experimental, diferentemente do monográfico, não se limita aos métodos de estudo bibliográfico e documental. Seu grande diferencial é, além desses dois métodos, trazer também a produção de linguagem. Nesse projeto, portanto, o grupo se baseará no diálogo entre essas três metologias para desenvolver os estudos acerca do tema escolhido: “A enciclopédia do vazio: a representação audiovisual como investigação do vazio existencial”.
Em um primeiro momento, serão realizados os estudos referentes à metodologia bibliográfica, que compõe os dois primeiros capítulos do trabalho. O primeiro, “Mapa Conceitual do Vazio Existencial”, tem como objetivo aproximar-se do amplo conceito de “vazio existencial”, um sentimento humano de extrema complexidade. A estrutura do capítulo refere-se ao caráter enciclopédico do título na medida em que traz um leque de perspectivas que auxiliam na compreensão do sentimento, o que é necessário devido à dificuldade de restringí-lo sob uma definição precisa. Para isso, tomará como a principal base as obras dos pensadores franceses Edgar Morin, Gilles Lipovetsky e Jean-Paul Sartre, que, apesar da nacionalidade em comum e períodos próximos, discutem diferentes ideias à respeito da condição existencial humana.
O segundo capítulo se aproximará de um fator de extrema importância desse trabalho: as singularidades da linguagem audiovisual e seu potencial de representação, recebendo o nome de “Estudo da Linguagem Audiovisual e Teoria Semiótica”. De modo geral, serão apresentados estudos acerca da forma de comunicar-se pelo meio cinematográfico, com base na bibliografia composta pelos autores Fernando Mascarello, Jacques Aumont e Jonathan Gottschall; e, como uma linguagem cultural humana, o estudo audiovisual esbarra na Teoria Semiótica, a ciência que estuda todas as linguagens e o processo de representação contemplado pelas mesmas. Para isso, será utilizada como a maior referência a autora brasileira Lúcia Santaella, cuja obra baseia-se nos estudos do americano Charles Sanders Peirce, um dos fundadores da Semiótica.
Esse segundo momento, ao apresentar ferramentas importantes para a análise da linguagem audiovisual, será um importante fundamento para o terceiro capítulo desse projeto experimental, denominado “Análise Referencial de Obras Cinematográficas”. Nesse ponto, será utilizada a metodologia documental como referência de estudo, que 6 consiste em duas obras audiovisuais: os longas “Birdman or The Unexpected Virtue of Ignorance”, escrito e dirigido por Alejandro Gonazález Iñarritu, e “Her”, do diretor Spike Jonze, também roteirista da obra. Esses dois filmes foram escolhidos como objetos de estudo por apresentarem, cada um dentro de seu contexto e criação, representações do vazio existencial que relacionam-se com os estudos desenvolvidos previamente. Além do segundo capítulo, o primeiro, “Mapa Conceitual do Vazio Existencial”, é também alicerce para a construção das análises em termos conceituais do do objeto representado, o vazio.
Conforme o objetivo desse projeto experimental, a realização do estudo monográfico providenciará as ferramentas necessárias para a última etapa metodológica do projeto: a produção de um curta-metragem que contenha representações do conceito de vazio existencial. O início do processo de produção do curta, que envolve seu planejamento, execução e finalização, ocorrerá somente após a conclusão das metodologias bibliográfica e documental, pois tem como fundamento o diálogo com os resultados, percepções, conceitos e insights advindos dessa primeira etapa do trabalho.
Por fim, pode-se dizer que o termo “Enciclopédia” não foi escolhido por acaso, e não se espelha somente na dinâmica estrutural do capítulo I; partindo do princípio que, para conceber a representação audiovisual de um conceito tão complexo, profundo e amplo como o vazio existencial, deve-se incluir uma extensa variedade de componentes, por mais fragmentado que seja a composição final; o conceito de ‘espírito de extensão’, de Michael Butor, pode ser relacionado com a dinâmica desse projeto. Consiste no pressuposto de que todas as obras são inacabadas, de modo que cada uma delas são fragmentos de um ‘algo’ que está em expansão — um ‘algo’ que pode ser acoplado a outros fragmentos e obter novos significados e formas de expressão. Segundo Butor, toda teoria, por mais original e inovadora que seja, é amorfa — não tem limites, bordas e contornos. Toda teoria é aberta justamente por estar inserida em um contexto social, que a mergulha no universo da metamorfose, da reinvenção, da complementação, tornandose, também, um fragmento. Nas palavras de Michel:
Já que a obra deve ser indefinidamente continuada pelos leitores, em particular por aqueles que vão eles mesmos escrever outras obras ligadas a ela, de modo mais ou menos claro, ela vai em breve apresentar-se ela mesma como inacabada, (…) a espiral que nos convida a prosseguir.
(BUTOR, MICHEL - OBRA MÓBILE)
Dessa maneira, toda obra está sujeita à mudança, produzindo uma “Obra”, com ‘ô’ maiúsculo. Nasce, aí, o conceito chave para a escolha do nome deste trabalho e para a dinâmica generalizada de sua pesquisa, o conceito de ‘Obra Móbile’: uma obra em que o autor, partindo de um pivô - o sentimento de vazio, propõe uma composição múltipla que se desdobra em diversos fragmentos que dialogam entre si: tanto de cunho conceitual, por meio de uma base bibliográfica, quanto de análise referencial, se utilizando das obras documentais, como também, de produção de linguagem audiovisual, concebida por meio dos estudos desenvolvidos na etapa monográfica. E por fim, a espiral de Michel Butor evidencia mais um componente da Enciclopédia do vazio: a infinidade de interpretações possíveis por cada interlocutor.