A ENCICLOPÉDIA DO VAZIO
A ENCICLOPÉDIA DO VAZIO
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O CURTA
Com uma caixa cheia até a boca de bilhetes dobrados em aviõezinhos, uma menina em seus vinte e tantos anos debruça-se perigosamente sobre a grade de segurança do topo de seu prédio, e arremessa-os para a vida, observando-os a voar, de um lado para o outro, rodopiando, até sumirem de vista; os aviões tomam vida própria assim que libertam-se das pequenas mãos trêmulas, e, caso algum deles fosse aberto, leria-se: o meu vazio é seu.
Invadida pela imensidão daquela vista, e sentindo um aperto no coração de ver os aviões, sozinhos, rumarem para um destino incerto no ar da noite, a garota debruça-se um pouco mais, e um pouco mais até que... um vizinho que subira até ali para fumar um cigarrinho discreto, agarra-a com determinação pelas costas e ambos caem para trás num bolo de chutes e socos. “Puta que o pariu! Que porra é essa, velho?”, “C-como assim?... Meu Deus, me desculpe!”, o vizinho, com as próprias mãos, dá tapinhas nas roupas da moça, tentando limpá-la, como uma forma de consolo. “Eu te vi ali, na grade, e um milhão de coisas se passaram na minha cabeça — por exemplo, você sabia que é exatamente durante a madrugada entre domingo e segunda-feira que as pessoas mais cometem suicídio? Eu não sei por quê, mas, de certo modo, eu super concordo — eu escolheria este momento se eu fosse... se eu fosse... você sabe”. Com cara de incrédula, ela dá um soco no vizinho — o seu cigarro sai voando de sua boca. “Você achou que eu ia me matar? Você nem sabe quem eu sou!”
Pouco sabem à respeito do outro além do número do apartamento, apesar de dividirem praticamente o mesmo endereço há alguns anos. Ela, moradora do 173, e ele, do 147. Ambos estão apoiados na grade, olhando a cidade: ela tenta esconder a caixa de aviões com as pernas. “Isso tem um nome, sabia?”, “O quê?”, “Essa sensação que nos dá quando você olha pra baixo e... parece que a imensidão da vida está te esperando, te chamando, sabe? Dá vontade de pular”, mas ele se corrige, quando 173 lhe dá uma olhada feia, “Não que a gente seja suicida! Chama-se L’appel du Vide — vem do francês: ‘o chamado do vácuo’. Eu sinto isso... às vezes.”.
Porque é tão difícil se conectar verdadeiramente com o outro? Mostrar quem realmente somos, expor nossas fragilidades e medos. Por mais que estranho, para 173 atirar aviões de papel mundo afora é algo realmente sincero. Talvez, a coisa mais sincera que já fizera em toda sua vida. Ela é a metáfora perfeita de seu tempo - uma linha de montagem de desertores, de céticos que não acreditavam mais em religião, família, política, e, ao mesmo tempo que se isolavam de tudo, reclamavam de solidão. Ainda por cima, tomara conta de uma enorme desvantagem sua: não sabia nem a própria razão de viver.
Seria apenas mais uma consequência de seu tempo?
(...) "Existe uma palavra em Russo, Toska, que é aquela angústia que a gente sente por... Por nada. Como se doesse aqui (no peito), na alma, sabe?""
"Como você sabe todas essas coisas?"
"Sei lá, eu gosto de lembrar dessas palavras inúteis."
Levando a menina rapidamente até a sua janela, cujo batente contém um par de binóculos, Cento e Quarenta e Sete diz: “Eu quero lhe mostrar uma coisa”, e ela deixa-se levar. “Toda vez que eu sinto esse aperto, eu venho até aqui”, diz Cento e Quarenta e Sete, colocando os binóculos de maneira invertida nos olhos, “e observo, assim, as coisas passarem pela minha janela — porque o mundo inteiro fica tão pequeno quanto eu”. Cento e Setentra e Três sorri, observando Cento e Quarenta e Sete, e experimenta a tática dos binóculos invertidos: o mundo, então, fica tão pequeno e leve quanto ela. Os dois, então, revezando o par de binóculos, entram numa brincadeira de adivinhar a razão de viver do mundo e dos transeuntes lá embaixo.
Ambos sorriem, e se olham:
"E pra isso tudo, existe alguma palavra?"
"Basorexia."
"Basorexia?"
"Uma vontade incontrolável de beijar alguém." (...)











