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- 7 de set. de 2016
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“O homem abriu a porta do carro, e automaticamente foi engolido por um barulho ensurdecedor; sentiu as roupas grudarem em seu corpo com o pesado úmido do vento, e gritou, agarrado em seu veículo para não ser levado: “Saia daí! Saia já, fuja!”, ele falava alguns termos dispersos como se tentasse condensar muitos sentimentos em algumas palavras-chave, “A tempestade — os r-raios! Você está no meio da rua!”
O outro, por sua vez, ficou surpreso com aqueles gritos e abaixou os braços por um momento, encolheu-se de frio, e só aí que pôde-se observar claramente como ele era — um moribundo, de roupas tão rasgadas que mal podiam carregar o título de roupas. Ele agitou a mão em direção ao outro como quem dizia ‘vá, vá’. Entretanto, o primeiro, segurando firme nas bordas de seu carro, não se moveu.
“Fuja! Aí não é seguro!”, e o ensopado sorriu com todos os dentes, debochando da vida. Com toda a calma do mundo, abriu a boca para falar as palavras mais sinceras que o outro escutaria: “Vá para casa, vá dormir: eu não estou aqui, eu nem existo. Eu sou produto do sonho que você ainda vai ter hoje, e que quando acordar não vai mais estar lá”, virou de costas, abriu novamente os braços e andou para o meio da rua.
Então, de súbito, uma onda de chuva torrencial veio, com toda a sua potência, e rasgou o mundo — o sujeito sumiu, em uma questão de milissegundos, no meio daquela confusão de sons, sensações e de medo. Sumiu. Foi levado, mastigado, engolido e, talvez, cuspido.
Na manhã seguinte, o homem deu um beijo na testa de sua companheira, bebericou um pouco de café quente e chorou como uma criança na varanda de seu apartamento por uns bons vinte minutos. Porra, antes fosse um sonho.
Antes fosse.”
Diego Viñolo de Andrade
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