relatos de uma formiga
- 16 de set. de 2016
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Quando eu era criança, tinha medo do universo. Mudava de canal quando começavam aqueles programas científicos que relatavam o fim do mundo, aparentemente cada vez mais próximo, ou qualquer outra teoria envolvendo cometas, calotas polares e desastres naturais. Eu entendia o universo como um espaço infinito, desconhecido e assustador que diminuía até meus maiores ídolos.
Pouco a pouco, ficava claro: sou uma formiga.
Lembro que gostava de sentar próxima à janela do avião, e ficar observando as casas se tornando caixinhas, e os postes virando pontos de luz. As pessoas, nem conseguia enxergar. Passei então a ter compaixão por formigas, brigava quando meu irmão matava uma a uma apenas com o dedo indicador, enquanto faziam fila em direção ao bolo recém preparado de minha Avó. Acho que me enxergava nelas, não sei.
Nessa mesma época, comecei a ter insônia. Passava noites em claro e ligava a televisão para tentar me distrair. Na Warner, se lembro bem, passava Friends, episódio após episódio até que por volta das 4h começava outra sitcom.
Passei então a gostar da noite. Não que não goste do dia, da luz do sol, da vida que assobia na janela logo cedo... Mas a noite tem sua poesia. A noite me dá uma sensação estranha de não ter fim, de que há tempo para se fazer muito, de começar e finalizar uma nova ideia criativa ou de criar planos infalíveis. Ou talvez, seja o contrário, e represente para mim aquele curto período em que posso ficar completamente sozinha.
A verdade é que nunca soube bem como me sinto em relação aquele momento em que o céu começa a mudar de azul marinho bem escuro para roxo, e em questão de minutos nasce o sol. É um misto de calma e tranquilidade com ansiedade e reflexão. Hoje, é aquele momento em que vou embora de fininho com medo de lidar com a realidade, com o dia seguinte, a rotina e as decepções.
Bom, eu não sou lá muito interessante de dia. Eu acho. É como o Rio Pinheiros, que enxergo da varanda de casa. De noite, parece um rio que reflete as centenas de carros que passam pela marginal, cada um dirigido por uma vida, indo ou voltando de algum lugar. Eu vejo tanta beleza nisso, nesses faróis acesos e janelas de prédios que revezam de abertas para fechadas, iluminadas e escuras. De dia, tudo que vejo é um rio que devia ser azul, mas está mais para marrom. Um entulho de coisas jogadas fora que atrapalham a corrente da água.
Muita gente olha para mim e vê amarelo. Solar. Um girassol saltitante que abraça tudo e todos com energia de criança e otimismo de sobra. Não deixo de me ver nisso, quando se trata dos outros tenho mesmo uma necessidade insuportável de querer agradar. Mas, no fundo, acho que sou um girassol virado para a lua.
Ainda me acho uma formiga, mesmo depois de todos esses anos. Acho que seria prepotência ou arrogância demais me enxergar como alguém importante. Mas, surpreendentemente, desenvolvi uma certa admiração pelo universo. É incrível como duas estrelas podem parecer próximas vistas daqui, quando na verdade estão a anos-luz de distância.
Eu descobri que o universo tem a sua poesia.
Ô se tem.
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